Thursday, February 12, 2009

Entre mercados e ações


Além da volta das férias, de cabelos resecados, de liquidações de verão, de cobrança de taxas públicas, o início de ano é tempo de rejustes. Tudo aumenta, das tarifas de ônibus e táxi às mensalidades escolares e da acadêmia. O mercado feminino não fica de fora, a tabela de preços de serviços de beleza sofrem mudanças significativas para o bolso, ou melhor, para a bolsa da mulher.

No caso de Eduarda, fazer as unhas no salão sempre foi item de primeira necessidade. Mas hoje é quase impossível encontrar serviço de manicure em um bom estabelecimento por menos de dezoito reais. Fazer a unha virou um mimo ao qual pode-se dar ao luxo apenas duas vezes ao mês e em ocasiçoes especiais. Nesses intervalos, ela tem que se virar sozinha com a acetona, o algodão, e os esmaltes.

Eduarda também tem prestado atenção na cotação da virilha, parte essencial da depilação: de doze passou para quartorze reais, depois para dezesseis, e agora está em dezoito. Isso ela até acha justo, afinal de contas, não é nada agradável para a profissional ficar arracando pêlos de uma parte tão íntima de outra mulher, a não ser que seja lésbica. Coisa pouco provável para Dalva, sua fiel depiladora-terapeuta.

Quando Eduarda juntou na calculadora os últimos gastos com manicure, depilação, sombrancelha, corte e hidratação de cabelos (sorte dela que sobrevive sem escova), limpeza de pele, considerando apenas o básico, encontrou um verdadeiro rombo no orçamento. E a grande causa disso é uma palavra: homem, ou melhor, namorado.

Conversando com Bia, Eduarda, usando como exemplo a depilação, disse que é favorável a uma taxa playgroud. A amiga feminista reagiu indignada.

_ Como assim? Isso não é legal, Duda. Eu me depilo para mim mesma, é uma questão de higiene pessoal.

- Você vai querer negar que quando você está com alguém as suas idas à depiladora são mais frequentes? – Eduarda rebateu.

- Pode até ser, mas não é certo querer cobrar por isso. Parece até prostituição.

- Peraí, eu não estou falando de fins lucrativos. Só acho que quando estamos saindo, ou namorando com um cara, gastamos bem mais do que ele para nos prepararmos: salão, roupa nova, até mesmo com o anticoncepcional. Ele podia pensar “poxa, ela se esforçou tanto para estar bonita hoje para mim, vou fazer uma gentileza e pagar a conta”. Eu tô falando apenas disso.

- Gosto de dividir todas as contas, inclusive de motel.

- Eu já saí com caras duros, não ligo de dividir conta. Mas acho que se o namorado ganhar mais que a namorada, não vejo problema dele pagar a conta ou mesmo lhe dar de presente uma limpeza de pele.

- Tá bom, então você ia gostar se o seu namorado falasse assim: “amor, sua pele tá um caquito, vá ao salão com urgência, eu pago”? – Bia ria – Ou então, assim: “você está parecendo uma urangotanga, quanto é a depilação?”.

Eduarda não aguentou e riu também.

- Bia, você coloca as coisas de uma maneira. Claro que não é assim. Homem não é bobo, finge que é para viver melhor. Poxa, você fica a tarde de sábado inteira no salão, volta outra mulher, é claro que não foi de graça. Ele pode muito bem oferecer ajuda para pagar ou dar uma roupa de presente para recompensar.

Naquele dia, as amigas mudaram o assunto, permancendo o impasse. Mas em outra ocasião, enquanto dirigia o carro e chateada com questões mais profundas que o pagamento de uma conta de restaurante, Bia disse:

- Duda, lembra quando conversamos sobre se era certo ou não dividirmos as contas?

Eduarda fez que sim.


_ Acho que você tem uma certa razão. Hoje vivemos um feminismo às avessas. Eu fico me perguntando até que ponto conquistamos direitos ou fomos sobrecarregadas de deveres. Porque tudo acaba recaindo sobre a mulher, primeiro a responsabilidade de evitar o filho, depois a luta de ser mãe e ter uma profissão, e a eterna cobrança de ter que estar atraente. E para o homem, passou a ser normal ver a gente lidar com tudo isso. Não recebemos nem um obrigado. Só uma rosa do supermercado no Dia da Mulher. Quer saber? Faltam ações de gentileza nos relacionamentos.

Wednesday, February 11, 2009

Madonna e o menino Jesus

Logo que fiquei sabendo dos boatos envolvendo Madonna e o seu “boy toy”, como é chamado pela imprensa norte-americana, Jesus Luz, simplesmente não achei nada. Estava super envolvida com um trabalho e na eminência de começar outro.

Mas sou favorável ao ócio produtivo e com a repercusão do caso, a ida dele a Nova Iorque para encontrar a Diva, a inflacionada vertiginosa do cachê do modelo, cheguei às minhas precipitadas conclusões de mal comida. “Jesus Luz é um aproveitador, claro”. “Madonna é uma otária por se envolver com um menino que tem idade para ser seu filho e que só está interessado na notoriedade dela”.

Mas eis que fuçando o site da Erika Palomino me deparei com a prévia do ensaio fotográfico que fizeram juntos para uma revista. Faz tempo que quero colocar fotos neste blog e não vejo melhor ocasião para começar. As imagens dizem tudo. Qual mulher em sã consciência, no lugar de Madonna, conseguiria resistir a tal espetáculo da natureza? Madonna além de estar a própria encarnação do poder, que ela de fato tem, está maravilhosa. Qual rapaz em sã consciência conseguiria resistir?

O jeito para nós, mortais, e oxidáveis, é correr literalmente atrás do prejuízo e malhar.

Ano Novo, vida nova ...

Ainda no ano passado, depois de pedir demissão e de dar o pé na bunca do seu antigo chefe biruta, nossa entrépida persongem arranjou um emprego temporário em uma empresa de pesquisa de mercado. Nunca se divertiu tanto. Os prazos a cumprir a cada instante e o tumulto constante lhe faziam se sentir útil.

Mas durou apenas um mês e Eduarda ficou desempregada. Felizmente com uma boa poupancinha que a fez segurar as pontas e não ter que implorar seu antigo emprego de volta. Graças a indicações de amigos, o início do ano tem sido bom, ela tem feito trabalhos de consultoria, na verdade, tem vivido de bico. Mas tem entrado dinheiro, o que a deixa calma.

Aliás, ultimamente, Eduarda tem andado bastante tranquila para seus padrões. O clima de início de ano, o cheiro da agenda nova (que sempre ela lembra de usar só até março), e a expectativa da chegada da coleção de inverno lhe fazem bem. O primeiro semestre é sempre mais divertido que o segundo.

Eduarda está cheia de planos para 2009: arrumar um emprego bacana; voltar a estudar inglês; fazer uma pós-graduação (condição para arrumar um emprego bacana); voltar a correr regularmente e emagrecer 3 quilos; e resolver sua situação com o namorado. Este último item já não tem tanta urgência, já que, pelo menos por enquanto, o namoro tomou um fôlego.

Mas mesmo com tantos planos novos, Eduarda reencontrou um antigo conhecido. Eduarda se matriculou na antiga acadêmia. Sérgio está malhando lá e está mais gostoso do que antes. Que costas, que bundinha linda. E o hobby predileto dele é ajudá-la malhar.

_ Você não tá segurando o peso direito _ diz do mesmo jeito bravo que ela adorava. E por trás dela, segurando firme seu braço lhe ajuda com o movimento. Eduarda sente um arrepio e se lembra porque fez a besteira de sair com ele.

Não. Eduarda não vai trair o namorado com Sérgio. Mesmo ele estando tão charmoso em cima da moto nova que comprou em vinte quatro prestações. Ele também está namorando, o nome da garota é Renata, está escrito no capecete dele, em letras cursivas e reticências em seguida. Por uns instantes Eduarda imaginou seu nome lá: “Eduarda...” . Pior que letra de pagodê.

Mas o clima de flerte está fazendo bem para a auto-estima de Eduarda. O único problema da presença de Sérgio é que ela não pode se dar ao luxo de ir com o cabelo desleixado para a acadêmia, ou de fazer cara feia na hora das abdominais.

O saldo até agora é positivo, Eduarda espera manter esse alto astral durante o ano todo, tomar atitutes maduras, mas ainda manter pequenos dilemas adolescentes para a vida não perder a graça.

Tuesday, August 26, 2008

A síndrome da mal comida

A síndrome da mal comida não escolhe cor, religião, classe social ou estado civil, os sintomas aparentes são: mau humor e irritação constantes, que refletem insatisfação feminina (consciente ou inconsciente) com aspectos da vida, entre eles o sexual.

Quinta-feira de manhã, no caminho para o trabalho, Eduarda espera o ônibus. São 7:30, vai dar tempo de chegar antes de todo mundo e terminar o relatório para a reunião. O ônibus chega, ela deseja “bom dia” ao motorista, esperando também ter um bom dia.

De bom humor, cantarolando a música da Madonna, que toca no seu MP3, ela abre a porta da sala, liga seu computador. Termina o relatório, valeu à pena ter passado a noite em claro.

A impressora não funciona. Pronto, já é o suficiente para lhe irritar. Ela tenta abstrair. Depois vem a bronca do chefe biruta na frente de todo mundo. Não tem mais jeito, qualquer coisa é motivo: a intriga do colega invejoso, o erro no banco de dados, a desculpa esfarrapa da estagiária loura falsa e sonsa para faltar.

Ao final do dia, depois do ônibus lotado da volta, Eduarda chega em casa um farrapo humano, com forças apenas para tomar um banho e se jogar debaixo das cobertas. Mas é pega de surpresa, logo a Mãe inventa uma nova discussão absurda e interminável.

São 9:30, finalmente a Mãe vai se deitar, pelo menos, dorme cedo. Eduarda comemora, vai poder assistir em paz a seu programa favorito da televisão. O telefone toca, é o namorado. Droga! Ele pergunta como foi o dia dela. “Péssimo”. Ele diz que está com saudade. “Ela também”. Ele diz que a ama. “Ela também”. Ele deseja boa noite e desliga. Ela liga a televisão novamente, mas o programa já acabou.

Ela havia se tornado uma mal comida. Essa é a verdade. Ela havia entrado para o grupo da Heloísa Helena, da Adriane Galisteu, da professora de antropologia da faculdade, da balconista da padaria, da colunista que ela lê, e da sua Mãe.

Insatisfeita com tudo, com o trabalho, com a vida familiar e com o namoro. Naquele momento, o que ela deseja é um pinto de tamanho e largura consideráveis, grande, gigante, para sentar.

Liberdade???

Finalmente Eduarda se formou. Foram dois anos de dedicação. Logo que defendeu a monografia, ela comparou a sensação a um orgasmo. “Foi melhor do que quando perdi a virgindade”, disse rindo. Estava livre! Livre. Livre... Livre?

Eduarda não percebia, mas a monografia lhe servia como um escudo protetor eficiente: “não ia poder se encontrar com as amigas porque tinha que fazer monografia”; “não podia lagar os empregos e procurar outro melhor até terminar a monografia”; “não podia fazer sexo porque estava com sono demais, pois tinha virado à noite fazendo a monografia”; “não podia sair de casa até terminar a monografia e se formar”.

De repente, não tem mais monografia para fazer. E agora? Monstros que ela mantinha debaixo da cama agora estão saindo. E Eduarda tem que correr contra o maldito tempo. São tantas coisas para resolver: precisa arrumar um emprego onde tenha mais estabilidade e um salário maior; precisa decidir se tenta ou não salvar seu namoro pela vigésima vez; e o principal, precisa arrumar uma casa.

A vontade é de mandar tudo à merda: seu emprego medíocre, seu namoro falido, e sua Mãe doida. O problema é que o emprego medíocre, no momento, é o único, e seu namorado parece a única pessoa no mundo com quem pode contar. Sobre a Mãe, ela não chegou a nenhuma conclusão.

Eduarda nunca se sentiu tão presa.

Thursday, July 24, 2008

Querida Mamãe (1)

A vida de Eduarda está um inferno em sua casa.

Ela e a Mãe não se falam. Quando isso acontece, é a Mãe lhe xingando por alguma coisa.

- Mãe, aceita chocolate?

Ela vai até a cozinha pega a barra, põe um pedaço generoso na boca e engole.

- Nossa, faço idéia do preço dessa porcaria. É porque está com dinheiro sobrando.

(Tradução: Que droga, você nasceu.)

É assim o tempo todo quando está em casa.

Wednesday, July 16, 2008

Welcome to the jungle

As férias estão chegando. Depois de três anos é a primeira vez que Eduarda tira férias no mês julho.

Ela e o namorado estão planejando viajar para a serra. Dois dias acampando e dois numa pousada com todo o charme da montanha e o conforto da cidade. Dois dias de frio, muito frio, fome e mosquito. Dois dias de paraíso, cama quentinha e cafés da manhã colonial.

Eduarda detesta acampar, fez isso uma vez só para se arrepender para sempre. Ela tem prisão de ventre. Fazer as necessidades no vazo sanitário já é custoso (é preciso muito Activia). Assunto escatológico? É, é isso, acampar envolve assuntos escatológicos. Não dá para pensar em banho numa cachoeira a zero graus de temperatura.

De quê vale todo esforço de nossos antepassados para deixarem de ser nômades, se os “amantes” da natureza deixam suas vidas sossegadas só pelo prazer de quebrar um perto da “cachu”? Categoria na qual se incluem seu namorado, sua sogra e a família quase toda dele. Não adianta, Eduarda não faz parte da turma "cachu", mesmo usando a expressão "véi" às vezes quando está distraída.

Para compensar, Eduarda pediu pousadinha com sauna e piscina aquecida e foi atendida.

Monday, June 16, 2008

Are we monogamis? (2)

No início do seu relacionamento com o outro, em todas as vezes que ele lhe fazia alguma raiva, Eduarda o traía. Não chegava a transar, até porque ela ainda não transava nem com ele. Mas era o suficiente para se sentir culpada e esquecer qualquer mágoa.

Ao vê-lo, Eduarda sentia um misto de remorso com um tesão tremendo. Era ótimo fazer as pazes. As famosas discussões de relacionamento não duravam dez minutos e o restante da noite era só beijos. O sexo acabou sendo ruim, mas há que se fazer justiça, os beijos foram os melhores. Nunca mais ela beijou daquela forma.

Tudo corria bem, até o momento em que ela decidiu que seria só dele e, principalmente, que ele seria dela, só dela. Desde então, ela passou a descontar nele toda raiva que sentia quando ele ia sem avisar às haves, ou ficava sem ligar mais de um dia. As famosas discussões de relacionamento passaram a durar bem mais tempo. Os beijos pioram, e o sexo, que já não era bom, ficou ainda pior. Para Eduarda, a vivência dela com o outro coloca em dúvida a capacidade do ser humano de ser monogâmico e feliz ao mesmo tempo.

Com Sérgio, ela não chegou ter envolvimento emocional, era mesmo atração física. Chamou o curto relacionamento com ele de namoro para poder fazer sexo sem sentir culpa. E ela também o traiu. Traiu porque sabia que ele também a traía e não ligava para isso.

Com Rodrigo, não existiu a transição entre o “ficar” e o namoro, foram logo assumindo o relacionamento e com pouco tempo já dormia na casa dele. No banheiro e no armário dele já tem espaço para as coisas dela. Eduarda nunca o traiu, não tem coragem. Ela sente como se já estivesse casada com ele. Tem um respeito muito grande por ele, porque sabe que, de todos, foi ele quem mais a amou, talvez o único.

Are we monogamis ? (1)

Em um mês aproximadamente, as mulheres e os gays do mundo todo comemoraram dois grandes lançamentos: o CD Hard Candy de Madonna e Sex and The City, o filme.

Ansiosas pelo retorno de suas antigas conhecidas do seriado, Eduarda e Mahara foram conferir a estréia do filme. Pediram alforria aos namorados, seria uma noite ao estilo single girl . E outras mulheres também tiveram a mesma idéia e algumas delas se vestiram, ou tentaram se vestir, como a própria Carrie Bradshaw.

Além dos assuntos vitais da trama, o romance entre Carrie e Big, sexo e moda, o longa discutiu desde o papel da amizade na vida das pessoas à necessidade constante de um celular com sinal, do perdão e da boa depilação. Mas dois assuntos chamaram mais a atenção de Eduarda, o desgaste causado pela rotina nos relacionamentos e a questão da monogamia.

A maioria das revistas femininas com matérias sobre o filme trouxe algum teste do tipo “quem é você, Carrie, Samantha, Charlotte, ou Miranda?”. Em todos os testes que Eduarda fez houve empate entre duas ou três personagens. Talvez isso seja porque todas as mulheres têm um pouco de cada uma das quatro dentro de si: um amor mal resolvido no passado, o desejo incontrolável por um sapato novo, a curiosidade por novas experiências sexuais, o sonho de ter uma família, a necessidade de se realizar profissionalmente.

Mas se fosse assim fácil classificar as mulheres nesses quatro modelos ideais, na visão de Eduarda, Mahara seria a Carrie, porque, apesar de alguns rompantes de insensatez, ela é a mais ponderada de suas amigas, e porque, apesar de ser mais nova (alguns meses, vamos deixar claro), faz o papel de irmã mais velha, sempre carinhosa e com algum conselho relevante para dar.

Quanto a si mesma, Eduarda chegou a conclusão de que é a Samantha aprisionada na Charlotte. Ela não chegou a conhecer seu pai, que sumiu no mundo depois que ela completou um ano de idade. A família dela era sua Mãe e a Avó, que morreu faz alguns meses. E é muito triste ter que comemorar o Natal apenas entre três pessoas, agora, entre duas.

Então, mesmo sabendo que não tem o menor instinto materno, resolveu que iria se casar e construir uma família: ela, o marido, e dois filhos (porque ela acha muito chato ser filha única). E Eduarda acabou encontrando o homem ideal para por em prática seu projeto. Rodrigo a ama e não esconde seu desejo em passar o resto da vida com ela.

Tudo seria perfeito, não fosse o seguinte fato: ela conhece apenas três pintos, contando com o dele. E pensar que nunca mais ela transará com mais ninguém a enlouquece. Nesse caso, a velha máxima é verdadeira, Rodrigo é o homem certo na hora errada. Mas simplesmente não dá para disser isto a ele: “olha você é um homem perfeito, mas eu vou transar com mais uns dez carinhas antes de me casar, ok?”. E por medo de deixar o homem perfeito ir embora ela continua com ele.

Friday, April 25, 2008

Mais do mesmo ...

Estavam no apartamento dele. A amiga estava certa, novamente, Eduarda não teve coragem de terminar. Ao olhar nos olhos dele não encontrou motivo para por fim ao namoro. No caminho, pensou no quanto ele sofreria e sentiria a sua falta. Mentira. Na verdade, pensou no quanto ela sofreria e sentiria a falta dele.

Ele já fazia parte de sua vida. Havia se acostumado com ele, até com o seu mau hálito pela manhã (e ele com o dela). Todos os dias, na hora do almoço ele ligava, “só para dizer um oi e que lhe amava” , e antes de dormir, “pra desejar bom sono”. E Eduarda acha tudo uma chatice mas não consegue imaginar sua vida sem isso.

Eduarda também pensou no tédio que será ver novela sem os comentários irônicos dele sobre a previsibilidade do roteiro. E na saudade que vai sentir até de assistir a jogos de futebol aos domingos. Lembrou da sanduicheira elétrica nova que compraram numa promoção imperdível. E pensou nele com outra usufruindo daquela belezinha. Ela é egoísta demais para aceitar uma coisa dessas.

Eduarda pensou no sexo: na grande intimidade entre os dois; no quanto foi difícil aprender a atingir o orgasmo; e no período de seca pelo qual irá passar, caso termine, considerando que ela não pratica sexo casual e que demora algum tempo para se arranjar um namorado.

Eduarda, então, pensou no amor. E culpou a todos os filmes românticos aos quais assistiu, culpou a Meg Ryan e a Júlia Roberts. Culpou, inclusive, a Carrie Bradshaw de Sexy and City. O seriado apregoa a liberação sexual feminina, o uso do vibrador, mas insisti no príncipe encantado inatingível. Ela e muitas outras mulheres deixam de viver a “realidade”, o “possível", na expectativa de que no último episódio um Mister Big caia do céu em Paris.

Ele estava apreensivo, querendo saber o motivo do encontro repentino. Eduarda começou a sentir ânsia de vômito e a suar frio. Disse que precisava tomar um banho. Sozinha. Tempo suficiente para inventar alguma desculpa, já que não ia mesmo terminar. O inverno está chegando e é terrível ficar sozinha no frio.

Deitada ao lado dele, assistindo à novela, enquanto uma chuvinha fina caía do lado de fora, Eduarda se deu conta de que às vezes a “realidade” e o “possível” podem ser muitos bons.