Monday, March 14, 2011

Garota da Vitrine e outros romances: aprecie com moderação!

O filme Garota da Vitrine (Shopgirl, 2005) é uma adaptação do romance escrito e roteirizado por Steve Martin, ator que também estrela o filme, ao lado de Claire Danes e Jason Schwartzman.

A história gira em torno dos relacionamentos amorosos de Mirabelle Buttersfiel (Claire Danes), que desperta o interesse do jovem desengonçado e pouco promissor, Jeremy (Jason Schwartzman), e do cinqüentão bem sucedido, Ray Porter (Steve Martin).

No início do filme, o narrador descreve Mirabelle Buttersfiel como uma mulher perdida na imensidão de Los Angeles, à espera de sua alma gêmea. Segundo ele, seus contínuos fracassos começam a pesar sobre ela. E o que Mirabelle precisa é de uma voz que vire o foco para ela e diga a todos que aquela pessoa, que fica atrás do balcão da seção de luvas, tem valor.

Em outra seqüência, enquanto dirige, a protagonista escuta um programa de auto-ajuda no rádio. Basicamente a locutora diz:

“O ‘depois’ é mais importante para a mulher. Muito mais do que o próprio ato sexual em si. A mulher precisa ser abraçada. Ainda que, e a ciência prova isso, por alguém que não a ame. Isso libera hormônios. E a quantidade depende da intensidade com que é abraçada.

O primeiro melhor é aquele totalmente envolvente. Ele toma você nos braços e sussurra o quanto é bonita.

O segundo melhor é aquele com um braço. Ele está próximo a você, mas usa apenas um braço.

No terceiro, ele fica apoiado no cotovelo mas descansa o braço sobre seu estômago e olha para você.

Durante o quarto, você fica apoiada no ombro dele enquanto ele olha para o vazio.

Mas quando o primeiro melhor acontece, você se sente totalmente como uma mulher. ”

Tais palavras fazem com que ela telefone para um completo idiota, Jeremy.

Não tenho idéia de quão pautado na ciência esteja esse discurso. Mas tendo a concordar com ele. Nós mulheres, às vezes, nos contentamos com tão pouco devido à carência.

Embora seja uma ferrenha defensora do prazer feminino, reconheço a importância de um abraço e a nossa (minha) necessidade em se sentir protegida.

Mas aconselho as meninas a terem um olhar crítico para o desfecho do filme. Pois perpetua a condição subordinada da protagonista apresentada no início. Ainda que o reconhecimento de valor próprio pela personagem não passe diretamente pelo encontro de uma alma gêmea, Mirabelle tem que escolher necessariamente entre duas opções pouco acertadas: um jovem imaturo (que se mostra um pouco mais crescido) e um coroa emocionalmente inacessível. Acho que para o caso dela valeria a máxima: “antes só do que mal acompanhada”.

Recomendo às meninas que assistam ao filme pela boa interpretação dos atores e também pelo guarda-roupa inspirador da protagonista (aliás, quero todos os vestidinhos para mim). Mas um último aviso, os romances, bem como as comédias românticas, devem ser apreciados com moderação.

Thursday, March 03, 2011

Ainda sobre Cisne Negro e bipolaridade

Como apostei, Natalie Portman ganhou o Oscar de melhor atriz por sua atuação em Cisne Negro (Black Swan, 2010), filme no qual interpreta a bailarina Nina.

Escolhida para o papel principal na montagem de “O lago dos cisnes”, a bailarina tem que dar vida simultaneamente ao cisne branco e ao cisne negro. Tecnicamente perfeita, inocente e pura (a personificação do cisne branco), Nina precisa lidar com seu lado mais obscuro (o cisne negro), sensual, malicioso e maldoso, reprimido pela criação castradora da mãe e pela dedicação que a profissão lhe exige.

Em post anterior (http://jackemnotas.blogspot.com/2011/02/o-cumulo-da-bipolaridade.html) disse que a personagem devia sofrer de um caso extremo de bipolaridade. Escrevi bobagem. Um profissional de saúde mental me falou que a bailarina acumula uma série de problemas psiquiátricos.

Entretanto, a meu ver, continua interessante utilizarmos a metáfora dos cisnes para simbolizar um lado branco, pretensamente bom, e um lado negro, que tendemos associar ao mau. Existe dentro de nós um cisne branco e um cisne negro, o que varia em cada um é qual dos dois predomina e a intensidade com que se manifestam.

Conheço pessoas tomadas pelo seu cisne branco, que vão morrer sem nunca sequer conhecer sua porção negra. Já senti uma raiva sem explicação delas, até inveja.

Noto a prevalência de um cisne negro em mim, que tende a anular o cisne branco. Enquanto o primeiro é um ser extremamente sonhador, inteligente, confiante, sedutor, volátil e impulsivo (por vezes, inoportuno); o segundo é realista, esforçado, inseguro, simpático, conformista, ponderado e educado (quase servil).

Confesso que gosto bem mais da minha porção negra, mesmo que tenha me causado alguns estragos. Foi através do meu cisne negro que vivi meus maiores prazeres e minhas maiores dores, que me fizeram ser quem eu sou.

Não nego que foi com a ajuda do cisne branco que consegui alcançar minhas metas, mas foi também por causa dele que fui covarde em situações que exigiam uma postura forte.

Hoje, busco o equilíbrio entre os dois cisnes em mim. Chego à conclusão de que o conflito decorre de quando um dos cisnes tenta aprisionar o outro e, quando aprisionado, da força que esse faz para se libertar. E o equilíbrio está em deixá-los livres.